domingo, dezembro 10, 2017

Restingas no Canal de Mira - 2

Para quem queira navegar até à Vagueira pelo canal de Mira, convém que tenha em conta alguns cuidados, nada de especial, mas importantes para não se terem percalços.
O primeiro, e falo por experiência,  é a ponte da Barra.
Embarcações com calado aéreo superior a 15 metros terão  de pensar duas vezes antes de se aventurarem.
Um amigo pintou os pilares da ponte, a montante e a jusante, com traços de tinta castanha, que indicam 14 metros até ao tabuleiro da ponte. São uma boa indicação para quem passa por ali nas primeiras vezes.
O Veronique, 15 metros da agua ao top mastro,  tem de fazer a viagem em duas etapas, uma baixa Mar para passar a ponte e uma meia maré para cima  para o resto da viagem.


Fotografia ilustrativa da folga do mastro do Veronique para a ponte. Notar que do top mastro à agua são 15 metros.

 Da minha parte faço sempre uma paragem técnica na Costa Nova, simpática praia servida dos melhores restaurantes das redondezas, pelo que é sempre recomendável esta espera de maré.


Foto do google earth em que se vê bem a restinga a evitar


Para a espera temos o pontão exterior do CVCN e o pontão exterior do Porto de Pesca Artesanal, este de muito fácil acostagem na enchente.


Aspecto da restinga vista do arco central da ponte da Barra
                                               © André Zuquete

O arco para passar a ponte é o segundo a partir do muro nascente do canal.
A sonda anda aí perto dos 3 m na Baixa Mar.
O arco central tem sensivelmente a mesma altura, mas o canal está muito assoreado nessa zona.
Passada a ponte, inflete-se para poente para ganhar o enfiamento do arco central com o guincho do CVCN, procurando se o Rv =222º
O quebra mar exterior  do CVCN, na enchente, tem uma corrente forte por baixo, que dificulta a amarração. Se o vento na altura for do quadrante Norte,  a dificuldade é maior.
No porto de pesca artesanal, a corrente de enchente é paralela ao quebra mar exterior, pelo que a amarração é mais simples.


Este vosso amigo em  trabalhos de prospecção ao canal de Mira, para poder mandar, com propriedade, as bocarras deste modesto texto

quinta-feira, dezembro 07, 2017

Restingas no Canal de Mira da Ria de Aveiro

Só não encalha na Ria quem não navega na Ria.
Desta vez vou falar no caminho que se deve seguir desde a Costa Nova até à Vagueira. 
O canal está bem marcado, com balizas correctamente colocadas e recentemente pintadas, vermelho-verde que, a serem respeitadas, garantem uma viagem sem sobressaltos, de meia maré para cima, para embarcações com dois metros de calado.
O sitio mais manhoso, porque as balizas são mais escassas, é na zona do porto de pesca artesanal, onde uma restinga de grandes dimensões, em frente ao Riactiva, pode enfaralhar as contas do passeio.
O truque é, no entanto, muito simples.
A partir do CVCN para Sul navega-se, sem qualquer problema, junto ao muro poente do canal de Mira.
Chegados ao Porto de Pesca Artesanal, logo na sua embocadura, faz se proa a nascente, enfiados a uma antena da TMN na Gafanha da Encarnação, e bem visível.
Chegados ao enfiamento da Baliza  a Norte com a Bóia Vermelha a Sul, sai-se do enfiamento nascente e aproa-se à bóia.
A partir daqui é só seguir e respeitar as balizas.
Um pouco mais a Sul há um cabo de Média Tensão que atravessa o canal de Mira e que está, no estofo da preia Mar, a 22 metros do nível da maré.
A amarração ao cais da Balsa, mesmo a jusante da ponte da Vagueira, faz se com a maior das facilidades na enchente, pois a corrente encosta-nos suavemente ao cais.

Aspecto das restingas vistas do Porto de Pesca e o poste da TMN


Esquiço do "caminho das pedras"

Outra vista das restingas, na baixa Mar, e do Poste


Vista das restingas e da Baliza do enfiamento a respeitar à frente


AsAs restingas e o Porto de Pesca Artesanal

segunda-feira, dezembro 04, 2017

José Francisco


Da Revista de Marinha e do Comandante Vasco Galvão, companheiro de viagem no Cruzeiro da ANC  aos Açores de 2004, o texto em baixo, que li com muito agrado. 



JOSÉ FRANCISCO
.
Conheci o Senhor José Francisco há muitos anos em Vila Nova de Milfontes, minha terra de adopção. Tive o prazer de privar com ele, quer a bordo de O VENTO, quer em muitos serões que passei na sua casa, ouvindo as suas apaixonantes histórias passadas no mar e não só. As suas narrativas eram uma lição de vida.

Começou a sua vida de mar em finais do Séc. XIX  com tenra idade, como moço de convés embarcado nos Iates e Palhabotes que navegavam exclusivamente à vela, sem qualquer motor/gerador e faziam cabotagem na nossa costa, a maioria pertencentes a armadores locais. Contou-me que a viajem rio acima até Odemira, era à vela com ventos dominantes de  NW de feição, aproveitando a maré enchente. Pelo contrário, a descida do Mira com ventos pela proa, era feita em duas marés com um bote a remos a rebocar à proa, ou à sirga, isto é, com cabos passados a terra com os tripulantes a alarem à mão!!!!! Saliento que o curso do Mira se desenvolve na direção SW/NW, pelo que com os ventos dominantes de NW era viável a navegação à vela até Odemira. Esses pequenos navios de cabotagem (tonelagem inferior a 100 tons), “importavam” de uma forma geral produtos que não era possível obter localmente (mercerias, conservas, tecidos, petrólio para iluminação, etc) e “exportavam” produtos locais (cortiça, cereais e outros).

No 5 de Outubro de 1910,José Francisco estava a bordo na Doca do Terreiro do Trigo em Lisboa, carga embarcada e pronto para zarpar para VNMilfontes. O reboliço foi tal que largaram somente dois dias depois, tendo a tripulação levado até aquele porto, a notícia da implantação do novo regime.

Já nos anos 20, embarcou como clandestino num navio para os EUA, onde chegou naturalmente como muitos emigrantes com uma mão à frente e outra atrás!!! Aí fez de tudo um pouco para sobreviver. A dada altura trabalhou num circo com um Cow Boy fazendo o número do Guilherme Tell, ou seja, José Francisco punha uma maçã na cabeça e o Cow Boy com um tiro de revólver, partia a maçã!!!!!!!!


Entretanto, aprendeu a ler e escrever (em Inglês, claro) tendo chegado a estudar para Piloto cujo curso nunca concluiu, mas contou-me, sabia marcar pontos na carta com leituras de sextante do Sol e das Estrelas.
Era engraçadíssimo, pois falava correntemente Inglês/Americano, mas com um leve sotaque alentejano (Okay, pronunciava Óquêiii).

Mais tarde conseguiu um dos seus grandes objectivos, fazer carreira na Marinha Mercante Americana, onde chegou a Contra-Mestre.

Contou-me que num Navio a carvão onde embarcara, um dos Fogueiros passava a vida em rixas com os seus colegas, provocando discussões e lutas terríveis (à navalhada). Os colegas fogueiros a certa altura, fartos do mau ambiente que ele provocava, não estiveram com meias medidas. Pegaram nele e atiraram-no para dentro da fornalha!!!! Devo esclarecer que José Francisco era tripulante de convés e nada tinha a ver com os fogueiros da Casa da Máquina. Também nesse tempo acontecia por vezes o recrutamento de tripulantes entre marginais que deambulavam nos portos por esse mundo fora. O embarque era a forma rápida e eficaz de fugirem às autoridades que os procuravam.

Já como Contra-Mestre de um Navio Petroleiro em plena 2ª Guerra, adoeceu, baixou ao hospital e o Navio zarpou sem ele. A meio do Atlântico foi torpedeado por um U Boot. O Navio foi ao fundo tendo morrido todos os tripulantes, e desta forma José Francisco lá se safou!!!!!

Quando o conheci em VNova, já estava Reformado e naturalizado Americano. Recebia regular e pontualmente a sua pensão de reforma da Companhia Armadoar Americana onde trabalhara.


Na década de 60, um triste episódio. Estava à janela do quarto com sua Mulher, Francisca Bezerra também natural de VNMilfontes numa pensão no Rossio em Lisboa, quando a Polícia tenta controlar uma manifestação de estudantes. Uma bala perdida mata a sua Mulher que estava a seu lado!!!!

Novo projecto, o seu veleiro O VENTO.

Com o seu vasto conhecimento e experiência de mar, com muito empirismo à mistura como era seu apanágio, executa um modelo à escala numa barra de sabão. Entregou o modelo num estaleiro na Amora na margem esquerda do Tejo  e terá dito: Quero isto, mas com 7.5mts de comprimento!!!!
E assim foi, passado poucos meses, sulcava os mares da nossa costa, em Solitário a maioria das vezes, a bordo de O VENTO que armava em CUTTER, gabando-se de não ter a bordo outra energia, além da eólica e do petróleo para os faróis de navegação e iluminação da cabine. Por vezes passava dias seguidos no mar sem ninguém saber do seu paradeiro, pois não tinha rádio a bordo (telemóvel só muitas décadas depois!!!!!).

Perguntei-lhe:

- Sr. Zé Francisco, e quando está cansado, o que faz?
- Simples, passo para fora da carreira dos vapores (como eram conhecidos pelos mais velhos, os corredores de tráfego marítimo da nossa costa), ponho de capa com o pano aquartelado (manobra das velas em que o barco fica quase imobilizado, apenas com um reduzidíssimo seguimento avante, 1 a 2 nós no máx.) e vou dormir!!!

Várias vezes tive o prazer de navegar com ele.
O último grande projecto era atravessar o Atlântico em solitário e morrer nos EUA. Um problema de visão não lhe permitiu concretizar este projecto. Contudo, idealizou e concretizou um “telecomando” por meio de cabos (Gualdropes, adriças, carregadeiras e outros) que lhe permitiam fazer toda a manobra em solitário, sentado nos vaus do mastro. Era vê-lo na Baía de Cascais, em finais da década de 70 e já com mais de 80 anos de idade, a velejar sentado nos vaus sempre aplaudido pelos entusiastas do Clube Naval e por outros velejadores que por ali passavam.



Em 1976, era eu um jovem Cadete da Escola Naval, e fui numa Viagem de Instrução ao Bi-Centenário da independência dos EUA em Nova York. Dias antes da largada, fui ter com José Francisco e perguntei-lhe se queria algum “mandado” (como se diz no Alentejo) para NY. Pediu-me que levasse a foto dele a bordo de O VENTO (igual à que aqui publicamos com o nosso amigo em solitário sentado nos vaus, demandando a saída da barra de VNMilfontes),  para oferecer à companhia de navegação onde trabalhara décadas atrás. Foi com o maior dos prazeres que lhe satisfiz este pedido. Assim lá fui ao escritório em Wall Street e fiz a entrega ao funcionário, que embora não conhecesse Mr. Francisco, era ele que mensalmente lhe processava a pensão de reforma.

Tempos depois, e incapacitado de concretizar o projecto da travessia Atlântica, vende O VENTO.

Um dia, bati-lhe à porta de casa e convidei-o para subirmos o Mira, a bordo do meu ALTAIR, um pequeno veleiro com 5.90 mts, e disse-me:

- Oh! Vasco, agradeço muito o convite, mas estou muito velho, já me custa muito.

-Oh! Senhor Zé Francisco, velhos são os trapos venha daí!!!!

E assim foi, embarcámos e de imediato passei-lhe a cana de leme para as mãos. Impressionante o conhecimento empírico que tinha do Rio, dizia-me:

- Vasco, vamos chegar mais aquela margem que o vento ali encana corgo abaixo e vamos apanhar uma boa refrega.

- Vasco agora encostamos aquela ponta de terra, que faz ali uma revessa que nos vai dar um empurrãozinho.

E assim fomos rio acima até à Casa Branca (cerca de 1/3 da viagem por rio Milfontes/Odemira) e voltámos sempre à vela. Tive o privilégio de ter sido o último amigo com quem o Zé Francisco navegou a vela.

No início da década de 80, estava eu embarcado num Patrulha na Madeira e recebi com tristeza a notícia da sua partida!!!!
A última vez que vi O VENTO na água, foi há uns anos amarrado à boia na Baía de Cascais, já sem a cabine. Entretanto, fiz alguns contactos entre velejadores e amigos de VNMilfontes e tive a agradável informação de que O VENTO continua “vivo”. Com efeito, o seu actual proprietário, António Lobbert conhecido velejador de Cascais, está a recuperá-lo no estaleiro do Sr. Jaime Costa em Sarilhos Pequenos. Este estaleiro que trabalha exclusivamente em madeira, prima pelo seu trabalho construindo e reparando muitas embarcações tradicionais do Tejo.

Que contente vai ficar o Senhor José Francisco, vendo “lá de ciama” o seu VENTO em reparação no estaleiro imaginado-o de novo e em breve a sulcar as nossas águas!!!

José Francisco, Grande Marinheiro e Grande Homem com quem muito aprendi, não de só de mar, mas também da vida.

Vila Nova de Milfontes, 25 de Outubro de 2016


Vasco Galvão

domingo, novembro 26, 2017

A História verdadeira do Motim nº 3 a bordo do Gracioso Veleiro

Corria o ano da graça de 2003 e navegava o Veronique, célere com o vento, rumo à ilha mágica da Berlenga.
O vento estava de feição e a viagem foi toda, quase toda, vá, feita à vela, de noite, com as luzes de navegação, de incandescência à época, ligadas, e com declamações de poesia mariítima pelo VHF, como era saudável hábito naqueles remotos tempos.
Pelo través da Nazaré, tendo faltado o vento, decidiu-se ligar a máquina. 
Horror, a bateria do motor de arranque estava morta.
Tamanha imprevidência, de que o comandante era o natural responsável, suscitou da parte da tripulação as mais violentas criticas, injustas para o seu BAS (Bem Amado Skipper).
Resolvido tecnicamente o problema, continuou-se a viagem, não sem o bichinho do motim deixar de estar latente naquelas mentes doentias e revolucionárias.
Em Peniche, e como o BAS tinha alguns compromissos em Fátima, não de devoção religiosa, mas de reencontro com antigos colegas de Republica coimbrã, deixei momentaneamente a embarcação entregue ao first mate, Fletcher Christian Pargana.
Má decisão minha pois, pouco depois, a tripulação, instigada pelo first mate, amotinou-se, tendo designado este por MBAS, Mais Bem Amado Skipper.
Em Fátima foi constituída a Comissão para a Canonizção da Beata Sãozinha, nossa estalajadeira em Coimbra, anteriormente beatificada, mas infeliz e injustamente ainda não canonizada.
Apesar dos insistentes abaixo assinados, petições,  descrição dos muitos milagres a ela atribuídos, o Vaticano ainda não atendeu as nossas solicitações.
Justificava-se assim, plenamente, a minha breve ausência da embarcação.
Regressado, rapidamente retomei o comando, destituindo toda a tripulação dos postos a que abusivamente se arvorou, e tomando para mim o posto de MMMMMBAS, Mais, Mas Mesmo Muito Mais Bem Amado Skipper.
Em baixo as provas, fac similadas do Diário de Bordo do gracioso veleiro.













quarta-feira, novembro 22, 2017

A Escala na Figueira

A falta de tempo para uma navegação como deve ser, sem olhar para o relógio, obriga a umas quantas escalas nos portos intermédios, da Berlenga para Aveiro, outras quantas viagens pela A17 de e para Sul, deixando o gracioso veleiro pelo caminho e indo recolhê-lo depois, uns dias ou umas semanas mais tarde, conforme a disponibilidade profissional.




Desta vez, no Verão passado, da Berlenga até Aveiro, arribamos à Nazaré e à Figueira à Foz.




Ambas as pernadas foram feitas pelo médico de bordo, sr João Judice Pargana Fletcher (1) e por mim, o MMMMMBAS (2).

AS fotografias são do Bolha (© Bolha), que acompanhou a chegada e a partida da Figueira.

Na regresso, vindos  da Nazaré, o vento não ajudou muito, tivemos de fazer a viagem quase só a motor até à Figueira da Foz.

Ainda, à saída da barra da Nazaré, fizemos rumo directo a Aveiro, mas, como a ETA não era recomendável, arribamos à Figueira, corrigindo o rumo pelo través da praia da Lourosa.

A entrada na barra da Figueira e entrada no porto de abrigo foram, como sempre, com a suavidade e elegância de manobra típicas do gracioso veleiro e das suas excelentes tripulações.





Uns dias depois largamos da Figueira, com as horas contadas para chegar ao Oudinot, com máquina e velas, tocados por um SE de categoria, cumprimos as  31 milhas náuticas em pouco mais de cinco horas.







Notas do Autor:

(1) Em homenagem ao sr  Flectcher Christien, First Mate na HMS Bounty e chefe de rebelião, amotinado.

(2) MMMMMBAS Mais, Mas Mesmo Muito Mais Bem Amado Skipper, ie, EU.

quarta-feira, novembro 08, 2017

Entradas na Barra da Figueira


Será a barra mais próxima de Aveiro, talvez agora a do Douro, mais praticável há pouco, a suplante, mas é sempre emocionante a sua entrada.
As velejadas (às vezes motoradas) até à Figueira são, normalmente, muito agradáveis e acabam quase sempre à mesa da Rosa Amélia ou do Ceporteng.
Ainda lá irei este ano....



Da Serra da Boa viagem, a arribar ao Mondego


Já dentro do Mondego, a todo o pano


Este ano, de regresso da Berlenga, a manobrar para a entrada na doca




segunda-feira, outubro 30, 2017

Veronique, o Inicio

O estaleiro naval do mestre Alberto, praticamente dentro da cidade de Aveiro, ganhou fama mundial pela qualidade dos seus trabalhos. Ainda há muito pouco tempo recuperou a fragata "D. Fernando II e Glória", construída em Goa e destruída por um incêndio nos anos sessenta. Esta fama mundial que granjeou fez acorrer aos seus estaleiros veleiros de todo o mundo, de iates e também de vagabundos do Mar, homens de grande experiência e conhecimento, de uma riqueza cultural que dá gosto beber nas longas conversas das tertúlias que tenho o prazer de participar. Destes destaco dois sexagenários, o inglês Andrew e o alemão Georg.
O Inglês naufragou à entrada da nossa barra há três anos. Nesse naufrágio perdeu a mulher que não resistiu a um  Mar alteroso e a um braço engessado que a arrastou para o fundo. Depois do naufrágio foi ficando por cá, habita no seu velho tri-Maran semi destruído que ele recupera aos poucos para continuar as sua sagas Marítimas à volta dos sete Mares.
O alemão Georg, um pouco mais velho, veio reparar o seu 36 pés de ferro, foi também ficando, esperando a melhoria do estado do Mar, tertuliando com os velhos Marinheiros que por aquele estaleiro aparecem todos os dias e fazendo pequenos trabalhos para o Mestre Alberto. Quando terminou a reparação do seu veleiro, retirou-o da carreira e amarrou-o a um velho arrastão azul que esperava ser desmantelado para a sucata. 


O Veronique, ainda com o Sr Georg como armador, amarrado ao António Cação, corria o ano de 2000.


Já lá estava há uns meses e chamava a atenção pelas linhas esbeltas que ostentava. A meio de uma semana de Janeiro do ano passado os dois Marinheiros decidiram vir à cidade beber um copo num dos bares de gente do Mar que por aqui existem. Ao passar do portaló do barco onde estava amarrado, Georg escorregou e caiu. Transportado para o Hospital, diagnosticou-se fractura da coluna que o manteria na cadeira de rodas para o resto da vida. No domingo a seguir faleceu.
O resto juro que é verdade, eu assisti. Por volta das sete da tarde desse Domingo, sem ponta de vento ou barco a levantar as aguas da ria, o veleiro do Georg agitou-se estranhamente e as adriças bateram no mastro de alumínio de forma compassada e gritante, lembrando sinos a tocar sinais pela morte de alguém, como é habito nas nossas aldeias.
Eu estava presente com um amigo e fomos ver o que se estava a passar e nada descobrimos. Na altura não demos ao facto outra importância que não fosse a da curiosidade e estranheza pelo que não sabíamos explicar.
Na segunda feira seguinte, tivemos a noticia que o George tinha morrido em Coimbra pouco depois das sete da tarde, a hora a que o Veronique se agitou, sentindo a morte do seu dono.
O Veronique é um sloop de linhas clássicas com a proa em colher a lembrar os lugres do estaleiro do Mestre Mónica.
Quis o destino que me tornasse proprietário desse magnifico barco e, mais do que isso, Amigo do Udo Postfcher, filho do Georg que tanto amava aquele barco que era a sua casa.
O Veronique já ostenta o pavilhão das Quinas, mas chamar-se-á sempre VERONIQUE.

(10/jan/2001) 

quinta-feira, outubro 19, 2017

Uma saída da Barra de Aveiro, Fevereiro de 2001

...
no ultimo fim de semana, para variar, fui para o Mar. O Mar, como já disse, é o principio e o fim de tudo, ou, como diria o nandinho, "..deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas foi nele que espelhou o céu..."
sábado, ao fim da tarde, larguei em direcção à baía de s.jacinto, onde fundeei e dormi. 
Domingo às sete levantei-me, tomei um bom pequeno almoço, VHF no canal 8 (o canal das traineiras) e...
--- aqui embarcação de recreio Veronique chama mestre costeiro para informação metereologica..crrrr
--- responde navio motor Mestre Ribau, diga Veronique...crrrr
--- mestre, estou à saída da barra de Aveiro, pretendo navegar até à Galega ou até Matosinhos, como está o Mar aí fora? crrrr (aqui sou eu a perguntar)
--- pode entrar à vontade, o Mar está bonançoso de sudoeste e com vento do mesmo quadrante força 2, terminado, diga se ouviu . crrrr
( o crrrr é o barulho que o VHF faz no fim da transmissão)
--- obrigado mestre, já agora como se chama ? crrrrr
---- Alcino Monteiro do motor "Mestre Ribau" crrrr
--- obrigado mestre, aqui é joão madail veiga do veleiro Veronique. Boa pesca e boa navegação crrr
---- boa navegação para vocês também, terminado crrrr

Ainda dentro da Ria, a cerca de meia  milha da barra, de binóculos, constatei que efectivamente o mar estava bonançoso. Esqueci-me porém da fortíssima corrente que ali se fazia sentir, a meio da maré, na maior força da vazante, cerca de 4 nós ( 4 x 1,852 km/hora ).
No meio da corrente, mesmo à saída da Barra, apanhei 5 ondas de quatro metros que testaram o Veronique, e de que maneira !!!!
O veleiro galgou a primeira parede de agua, vacilou lá em cima e disparou em direcção ao centro da terra, mergulhou a proa completamente dentro de agua e saltou fora, como uma  baleia a respirar, com grandeza.
Tudo saltou dentro daquele barco, garrafas pelo ar, instrumentos aos tombos, enfim, um pandemónio.

A barra é a de Aveiro, mas foi numa entrada, também com SW e vazante rija.

Era impossível reentrar naquela barra. Coloquei então a hipótese de rumar a norte, a leixões, onde a quase inexistência de correntes torna a barra muito fácil.
Não foi necessário, o Mar estava mesmo bonançoso, era só ali que estava complicado. Liguei aos pilotos da barra pelo canal 14, que me sossegaram, as previsões eram muito boas, era só esperar pela mudança da maré, que o Mar baixava logo na entrada da barra. Eram 8 e 30 da manhã.
Esperei a mudança da maré, às 11h20, e reentrei por volta das 13 com o Mar como a  Ria, muito calmo...enfim, para contar aos netos.
Entretanto para gozar aquele Mar delicioso fui até ao largo da praia da Torreira,  cerca de 8 milhas ao norte, com pouco vento e ondas  de 2 metros, mas muito largas.
espero que a história trágico marítima vos  tenha, pelo menos distraído, e, desta vez, seja inteligível.


terça-feira, outubro 17, 2017

O fato de mergulho

O fato de mergulho, aos anos que ando para o comprar.
Num destes fins de semana atrás, fui até São Jacinto almoçar e descobri, tardiamente, a solução para o problema de almoçar em São Jacinto.
São Jacinto continua o albergue espanhol que conhecemos, no que diz respeito a amarrações para embarcações de recreio. Os seus restaurantes são muito apresentáveis, sobretudo nos pratos de peixe, mas amarrar um veleiro em São Jacinto é uma tarefa hercúlea.
E porque não fundear e chamar um dos táxis que lá prestam serviço? Eureka, porque não me lembrei disso antes.
É verdade, por meia dúzia de euros, vou e volto do Veronique a terra, almoço nas calmas e regresso ao veleiro sem chatices, aborrecimentos, pancadaria, insultos, bocarras e outras.
Foi assim neste ultimo fim de semana, um magnifico robalo selvagem escalado, com optimo azeite e muito alho, umas espetadas de gambas para as senhoras e um Coração d’Oiro, como a novela da SIC, um muito razoável Douro, para acompanhar.
Numa mesa ao lado o clã Conde fazia as honras a manjares idênticos, não sem antes  se combinar uma recachia entre os nossos veleiros, ao ‘leitão por fora’.
Suspendemos ao fim da tarde e retomamos o caminho do Oudinot, sob forte maré viva enchente, mas a viagem era curta.

Foto gentilmente cedida pelo Amândio,pela Sandra  e pelo veleiro Baccus,em que se pode ver a Marieke, a sensual galega, à pesca e duas teen agers inconcientes à luta com as minhocas, estando o Comandante no interior do gracioso veleiro às voltas com a Gertrude Stein

Ao entrar na doca do Oudinot, helás, um cabo bloqueou o hélice, deixando-nos sem máquina, mas sem grandes problemas para a amarração, feita com a perícia habitual com que eu fui habituando os meus tripulantes, feita apenas com a inercia das dez toneladas do Veronique.
Mas tive de pedir a amigos que mergulhassem e safassem o cabo do hélice.

E eis o motivo porque, desta vez é de vez, comprei um fato de mergulho.

segunda-feira, setembro 18, 2017

Senhora dos Navegantes 2017


Não sendo crente nem religioso, emociono-me com estas manifestações, mais pagãs que religiosas, sobretudo quando fluviais e marítimas.
A nossa Ria tem destas coisas, com os pescadores e outros profissionais do Mar a terem os seus santos de devoção, as suas festas, as suas crenças e superstições.
Eu e o Veronique estamos sempre presentes nestas andanças, com foguetório, merenda e amigos.
Largámos do Oudinot uma horita antes da procissão chegar ao Forte da Barra, ainda fomos até à Meia Laranja, sempre com a máquina a ajudar e, de regresso, fundeamos mesmo em frente à doca, fora do canal de navegação, devidamente sinalizados, e aguardamos.
Lá chegou então o cortejo, o foguetório durou mais de meia hora, rijo como convém.
Sinalizamos o Zás Tráz com priminha Anabela, o vizinho moliceiro São Salvador, os outros vizinhos todos, o Delmar, o Saravah e  o Jasine, os amigos da Ange como o Badanas e o Chemmy, muita rapaziada do CVCN como o Vitaminas do meu antigo timoneiro Velhinho.
O Veronique, que transportava o presidente da Balsa da Vagueira, arvorava impante o pavilhão de navio Almirante.
O Gustavinho também esteve presente com a lancha Praia da Costa Nova, e ainda víamos uma miríade de veleiros e lanchas, robaleiras, traineiras, a piloteira, etc etc.

sexta-feira, setembro 08, 2017

Golfinhos no Sado




Foi nas férias de 2014 que o gracioso veleiro Veronique rumou a Tróia.
Depois de uma viagem atribulada, com escala na Figueira, 
em Cascais, em Alhandra e em Sesimbra, lá arribou a Tróia.
(a viagem de regresso seria ainda mais atribulada)

Na marina Oceânica de Alhandra com a (famosa) carranca do Veronique arvorada

A passagem ao largo do Terreiro do Paço, a caminho de Alhandra


A manobra de amarração em Tróia

Nas duas semanas de estada em Tróia, apenas uma comigo presente, tivemos só uma saída para o Rio e, já de regresso a amarrar o veleiro no finger, fomos avisados que havia golfinhos (animais humanos) ao largo e, antes que perdêssemos a oportunidade, levantamos de novo as amarras e o Bolha, First Mate do gracioso veleiro, fez este video assim-assim.

Novas aventuras esperavam o Veronique.

quarta-feira, setembro 06, 2017

de Aveiro para a Figueira




Uma das viagens habituais do gracioso veleiro sempre foi  até à Figueira da Foz.
Desta vez juntamos a viagem à recepção à Sagres na entrada da barra de Aveiro, fazendo rumo conjuntamente com mais uns quantos  veleiros amigos.
Esta viagem, como todas as outras, foi mágica.
O Veronique levava a bordo o presidente do CVCN, arvorava por isso o pavilhão de navio almirante.
O fim da viagem foi em mareação de borboleta, linda.
Terminou com um jantar no Cepórtên (núcleo do Sporting da Figueira da  Foz) com um variado de peixe grelhado e por aí fora.


Berlenga 2016





Foi esta  a saga de 2016.
Tripulação do gracioso veleiro renovada, com a srª Vera como 1ª marinheira arvorada de vigia, a srª Emília a  2ª grumete encarregada do sino do rancho, o sr Bolha, o autor deste video e First Mate e, the last but not the least, este vosso criado como Capitão e  ELTEVBP (Encarregado de Levar  Todas Estas Vidas a Bom Porto).

Suspendemos do Oudinot num fim de tarde de nevoeiro, tão espesso tão espesso, que o sr Bolha teve de ir à proa com um faca a abri-lo para podermos progredir.
Ainda não chegados à Vagueira e já jantávamos  uma belíssima vichyssoise seguida de outra não menos apurada chanfana. O jantar acabou com uma sobremesa internacional, arroz doce.
Pelo raiar da madrugada arribávamos à baía da Flandres, na ilha mágica da Berlenga, onde fundeamos.
O almoço em terra, no restaurante do sr Arnaldo, foram uns magníficos robalos escalados.
A todo o pano rumámos a  Peniche, onde nos calhou em sortes um bacalhau abanado, confeccionado pelo imediato  e first mate sr Bolha, sobre uma velha receita de  família


terça-feira, setembro 05, 2017

Corsários na Ria de Aveiro

Acordado que fui da minha sesta pelo alarido ululante dos corsários do galeão São Salvador, preparadas as armas, os canhões e os copos, bastou a sua visão para abortarem a abordagem.


Estremunhado, o comandante do gracioso veleiro observa a aproximação do galeão São Salvador

Registada  na Crónica de Bordo esta façanha, digna de Fernão Mendes Pinto, patrício do Bolha e coevo dos seus avós, proprietário de uma famosa taberna em Montemor antes de partir para as Índias.




O galeão corsário São salvador em manobra de abordagem

Consta aliás que o dito Fernão M. Pinto terá embarcado na Armada das Índias logo a seguir a uma noite em que, só ele, teria esvaziado um tonel de dois almudes de tinto da Bairrada.
Depois disso nunca mais bebeu, tanto mais que, quando acordou, já tinha passado o Espichel.


Passada já a ameaça, uma nova sesta se impôs



© Fotos de Emilia Castro, Vera Silva e Teresa Santos

quinta-feira, agosto 17, 2017

E o Mar Invadiu a Planície

Texto antigo, que me chegou às mãos há uns anos, de uma médica, e que veio a talho de foice no almoço de hoje...
"...
Juntando  algumas das pedrinhas soltas da nossa conversa de hoje e pensando naquela tua imagem de estares despido sem o teu barco, e sem rumo fora do mar….recordei uma história que ouvi contar ao meu pai, naqueles tempos em que a juventude me permitia que as histórias ficassem na memória...dizia ele que um dia lhe entrou pelo gabinete lá nos Açores , o amigo Damião, conhecera-o anos antes, nos tempos em que ele esteve a trabalhar na nossa terra, e o inesperado daqule reencontro.... agora  com a situação invertida, era o ribatejano que se encontrava deslocado naquela linda ilha no meio do oceano, lá na terra dele, e o açoreano não podia estar mais espantado dizendo com aquele sotaque tão peculiar –“É homem então você está cá?”
E foi nessa altura que lhe confessou as saudades que, perdido lá no meio de tanta terra,  lá no ribatejo,  sentia da sua ilha e sobretudo daquele mar imenso ...e  na   altura em que as chuvas de  inverno faziam  subir as águas do rio e os campos ficavam inundados,...aí  ele ia para cima da ponte e sentia que respirava melhor rodeado de toda aquela água que cobria  a planura da lezíria, aquela água a perder de vista...e assim recuperava um pouco as forças para continuar ..longe ...era o que de mais parecido encontrava com a imensidão do seu mar.
..."

21 de Dezembro de 2004-12-21


 Luisa Rosa  

segunda-feira, julho 24, 2017

Berlenga 2017

As minhas viagens à Berlenga, longe de se tornarem rotineiras, representam sempre um conjunto de vivências e experiências únicas, pela presença do mar e do Vento e da sensação de se estar sobre as ondas e de flutuarmos sobre elas.
Desta vez não foi diferente, com a viagem a iniciar-se, como sempre, de noite, com largada de Aveiro pelas 2000, directo à ilha mágica.
Navegar à noite tem um encanto especial e, apesar de nos mantermos a dez milhas da costa, podemos sempre observá-la, com as suas luzes, os seus faróis, os seus contrastes.

A noite foi de lua cheia pelo que associámos às luzes o prateado das aguas, particularmente calmas.
A umas quinze milhas da ilha mágica, já de dia, fomos escoltados por cinco ou seis golfinhos, que emprestaram ao fim da viagem um encanto suplementar.
A escolta do Veronique

Pelas 1000, como previsto, fundeávamos na enseada da Flandres, na Ilha Berlenga Grande, para pouco depois nos deslocarmos ao restaurante do nosso amigo Arnaldo, onde almoçamos uns magníficos peixes na brasa, em melhor  companhia ainda.
No regresso pela Nazaré, com um vento de NW de 10 nós, fez-se uma bolina folgada até a cerca de 4 milhas do porto de abrigo, altura em que se fecharam as janelas e o vento caiu, obrigando-nos a ligar a máquina para os últimos passos até ao finger que acolheu o gracioso veleiro.
Da Nazaré até à Figueira não houve história, um Norte chato e frio e um Mar trapalhão acompanharam a viagem.
Na boca da Barra da Figueira esperava-nos o Bolha para a reportagem fotográfica.
A arribada à Figueira da Foz

Já a viagem da Figueira para Aveiro, feita com vento WSW de 10 nós e Mar de pequena vaga, foi um luxo.



O video do Bolha, 1º grumete arvorado do Veronique

O Veronique chegava amiúde aos sete nós e, muitas vezes, passava-os.


A todo o pano e a meia máquina

E se era certo que a máquina ia ligada, tínhamos muita pressa de chegar a Aveiro, não era menos certo que ia nas 1200 rpm, isto é a meia força, porque não adiantava força-la, que não andávamos mais por isso.
Ao largo da Praia de Mira

Entrada triunfante na nossa Ria, com mais amigos a fotografarem o gracioso veleiro.


A reentrada na nossa Ria de Aveiro