domingo, dezembro 31, 2017

Canal de Mira

Faz parte da tradição do Veronique passar o Natal e o Ano Novo na Vagueira.


Pelo caminho os Famingos Rosa



A escala técnica no Clube de Vela


E a essencial grinalda durante a noite

domingo, dezembro 10, 2017

Restingas no Canal de Mira - 2

Para quem queira navegar até à Vagueira pelo canal de Mira, convém que tenha em conta alguns cuidados, nada de especial, mas importantes para não se terem percalços.
O primeiro, e falo por experiência,  é a ponte da Barra.
Embarcações com calado aéreo superior a 15 metros terão  de pensar duas vezes antes de se aventurarem.
Um amigo pintou os pilares da ponte, a montante e a jusante, com traços de tinta castanha, que indicam 14 metros até ao tabuleiro da ponte. São uma boa indicação para quem passa por ali nas primeiras vezes.
O Veronique, 15 metros da agua ao top mastro,  tem de fazer a viagem em duas etapas, uma baixa Mar para passar a ponte e uma meia maré para cima  para o resto da viagem.


Fotografia ilustrativa da folga do mastro do Veronique para a ponte. Notar que do top mastro à agua são 15 metros.

 Da minha parte faço sempre uma paragem técnica na Costa Nova, simpática praia servida dos melhores restaurantes das redondezas, pelo que é sempre recomendável esta espera de maré.


Foto do google earth em que se vê bem a restinga a evitar


Para a espera temos o pontão exterior do CVCN e o pontão exterior do Porto de Pesca Artesanal, este de muito fácil acostagem na enchente.


Aspecto da restinga vista do arco central da ponte da Barra
                                               © André Zuquete

O arco para passar a ponte é o segundo a partir do muro nascente do canal.
A sonda anda aí perto dos 3 m na Baixa Mar.
O arco central tem sensivelmente a mesma altura, mas o canal está muito assoreado nessa zona.
Passada a ponte, inflete-se para poente para ganhar o enfiamento do arco central com o guincho do CVCN, procurando se o Rv =222º
O quebra mar exterior  do CVCN, na enchente, tem uma corrente forte por baixo, que dificulta a amarração. Se o vento na altura for do quadrante Norte,  a dificuldade é maior.
No porto de pesca artesanal, a corrente de enchente é paralela ao quebra mar exterior, pelo que a amarração é mais simples.


Este vosso amigo em  trabalhos de prospecção ao canal de Mira, para poder mandar, com propriedade, as bocarras deste modesto texto

quinta-feira, dezembro 07, 2017

Restingas no Canal de Mira da Ria de Aveiro

Só não encalha na Ria quem não navega na Ria.
Desta vez vou falar no caminho que se deve seguir desde a Costa Nova até à Vagueira. 
O canal está bem marcado, com balizas correctamente colocadas e recentemente pintadas, vermelho-verde que, a serem respeitadas, garantem uma viagem sem sobressaltos, de meia maré para cima, para embarcações com dois metros de calado.
O sitio mais manhoso, porque as balizas são mais escassas, é na zona do porto de pesca artesanal, onde uma restinga de grandes dimensões, em frente ao Riactiva, pode enfaralhar as contas do passeio.
O truque é, no entanto, muito simples.
A partir do CVCN para Sul navega-se, sem qualquer problema, junto ao muro poente do canal de Mira.
Chegados ao Porto de Pesca Artesanal, logo na sua embocadura, faz se proa a nascente, enfiados a uma antena da TMN na Gafanha da Encarnação, e bem visível.
Chegados ao enfiamento da Baliza  a Norte com a Bóia Vermelha a Sul, sai-se do enfiamento nascente e aproa-se à bóia.
A partir daqui é só seguir e respeitar as balizas.
Um pouco mais a Sul há um cabo de Média Tensão que atravessa o canal de Mira e que está, no estofo da preia Mar, a 22 metros do nível da maré.
A amarração ao cais da Balsa, mesmo a jusante da ponte da Vagueira, faz se com a maior das facilidades na enchente, pois a corrente encosta-nos suavemente ao cais.

Aspecto das restingas vistas do Porto de Pesca e o poste da TMN


Esquiço do "caminho das pedras"

Outra vista das restingas, na baixa Mar, e do Poste


Vista das restingas e da Baliza do enfiamento a respeitar à frente


AsAs restingas e o Porto de Pesca Artesanal

segunda-feira, dezembro 04, 2017

José Francisco


Da Revista de Marinha e do Comandante Vasco Galvão, companheiro de viagem no Cruzeiro da ANC  aos Açores de 2004, o texto em baixo, que li com muito agrado. 



JOSÉ FRANCISCO
.
Conheci o Senhor José Francisco há muitos anos em Vila Nova de Milfontes, minha terra de adopção. Tive o prazer de privar com ele, quer a bordo de O VENTO, quer em muitos serões que passei na sua casa, ouvindo as suas apaixonantes histórias passadas no mar e não só. As suas narrativas eram uma lição de vida.

Começou a sua vida de mar em finais do Séc. XIX  com tenra idade, como moço de convés embarcado nos Iates e Palhabotes que navegavam exclusivamente à vela, sem qualquer motor/gerador e faziam cabotagem na nossa costa, a maioria pertencentes a armadores locais. Contou-me que a viajem rio acima até Odemira, era à vela com ventos dominantes de  NW de feição, aproveitando a maré enchente. Pelo contrário, a descida do Mira com ventos pela proa, era feita em duas marés com um bote a remos a rebocar à proa, ou à sirga, isto é, com cabos passados a terra com os tripulantes a alarem à mão!!!!! Saliento que o curso do Mira se desenvolve na direção SW/NW, pelo que com os ventos dominantes de NW era viável a navegação à vela até Odemira. Esses pequenos navios de cabotagem (tonelagem inferior a 100 tons), “importavam” de uma forma geral produtos que não era possível obter localmente (mercerias, conservas, tecidos, petrólio para iluminação, etc) e “exportavam” produtos locais (cortiça, cereais e outros).

No 5 de Outubro de 1910,José Francisco estava a bordo na Doca do Terreiro do Trigo em Lisboa, carga embarcada e pronto para zarpar para VNMilfontes. O reboliço foi tal que largaram somente dois dias depois, tendo a tripulação levado até aquele porto, a notícia da implantação do novo regime.

Já nos anos 20, embarcou como clandestino num navio para os EUA, onde chegou naturalmente como muitos emigrantes com uma mão à frente e outra atrás!!! Aí fez de tudo um pouco para sobreviver. A dada altura trabalhou num circo com um Cow Boy fazendo o número do Guilherme Tell, ou seja, José Francisco punha uma maçã na cabeça e o Cow Boy com um tiro de revólver, partia a maçã!!!!!!!!


Entretanto, aprendeu a ler e escrever (em Inglês, claro) tendo chegado a estudar para Piloto cujo curso nunca concluiu, mas contou-me, sabia marcar pontos na carta com leituras de sextante do Sol e das Estrelas.
Era engraçadíssimo, pois falava correntemente Inglês/Americano, mas com um leve sotaque alentejano (Okay, pronunciava Óquêiii).

Mais tarde conseguiu um dos seus grandes objectivos, fazer carreira na Marinha Mercante Americana, onde chegou a Contra-Mestre.

Contou-me que num Navio a carvão onde embarcara, um dos Fogueiros passava a vida em rixas com os seus colegas, provocando discussões e lutas terríveis (à navalhada). Os colegas fogueiros a certa altura, fartos do mau ambiente que ele provocava, não estiveram com meias medidas. Pegaram nele e atiraram-no para dentro da fornalha!!!! Devo esclarecer que José Francisco era tripulante de convés e nada tinha a ver com os fogueiros da Casa da Máquina. Também nesse tempo acontecia por vezes o recrutamento de tripulantes entre marginais que deambulavam nos portos por esse mundo fora. O embarque era a forma rápida e eficaz de fugirem às autoridades que os procuravam.

Já como Contra-Mestre de um Navio Petroleiro em plena 2ª Guerra, adoeceu, baixou ao hospital e o Navio zarpou sem ele. A meio do Atlântico foi torpedeado por um U Boot. O Navio foi ao fundo tendo morrido todos os tripulantes, e desta forma José Francisco lá se safou!!!!!

Quando o conheci em VNova, já estava Reformado e naturalizado Americano. Recebia regular e pontualmente a sua pensão de reforma da Companhia Armadoar Americana onde trabalhara.


Na década de 60, um triste episódio. Estava à janela do quarto com sua Mulher, Francisca Bezerra também natural de VNMilfontes numa pensão no Rossio em Lisboa, quando a Polícia tenta controlar uma manifestação de estudantes. Uma bala perdida mata a sua Mulher que estava a seu lado!!!!

Novo projecto, o seu veleiro O VENTO.

Com o seu vasto conhecimento e experiência de mar, com muito empirismo à mistura como era seu apanágio, executa um modelo à escala numa barra de sabão. Entregou o modelo num estaleiro na Amora na margem esquerda do Tejo  e terá dito: Quero isto, mas com 7.5mts de comprimento!!!!
E assim foi, passado poucos meses, sulcava os mares da nossa costa, em Solitário a maioria das vezes, a bordo de O VENTO que armava em CUTTER, gabando-se de não ter a bordo outra energia, além da eólica e do petróleo para os faróis de navegação e iluminação da cabine. Por vezes passava dias seguidos no mar sem ninguém saber do seu paradeiro, pois não tinha rádio a bordo (telemóvel só muitas décadas depois!!!!!).

Perguntei-lhe:

- Sr. Zé Francisco, e quando está cansado, o que faz?
- Simples, passo para fora da carreira dos vapores (como eram conhecidos pelos mais velhos, os corredores de tráfego marítimo da nossa costa), ponho de capa com o pano aquartelado (manobra das velas em que o barco fica quase imobilizado, apenas com um reduzidíssimo seguimento avante, 1 a 2 nós no máx.) e vou dormir!!!

Várias vezes tive o prazer de navegar com ele.
O último grande projecto era atravessar o Atlântico em solitário e morrer nos EUA. Um problema de visão não lhe permitiu concretizar este projecto. Contudo, idealizou e concretizou um “telecomando” por meio de cabos (Gualdropes, adriças, carregadeiras e outros) que lhe permitiam fazer toda a manobra em solitário, sentado nos vaus do mastro. Era vê-lo na Baía de Cascais, em finais da década de 70 e já com mais de 80 anos de idade, a velejar sentado nos vaus sempre aplaudido pelos entusiastas do Clube Naval e por outros velejadores que por ali passavam.



Em 1976, era eu um jovem Cadete da Escola Naval, e fui numa Viagem de Instrução ao Bi-Centenário da independência dos EUA em Nova York. Dias antes da largada, fui ter com José Francisco e perguntei-lhe se queria algum “mandado” (como se diz no Alentejo) para NY. Pediu-me que levasse a foto dele a bordo de O VENTO (igual à que aqui publicamos com o nosso amigo em solitário sentado nos vaus, demandando a saída da barra de VNMilfontes),  para oferecer à companhia de navegação onde trabalhara décadas atrás. Foi com o maior dos prazeres que lhe satisfiz este pedido. Assim lá fui ao escritório em Wall Street e fiz a entrega ao funcionário, que embora não conhecesse Mr. Francisco, era ele que mensalmente lhe processava a pensão de reforma.

Tempos depois, e incapacitado de concretizar o projecto da travessia Atlântica, vende O VENTO.

Um dia, bati-lhe à porta de casa e convidei-o para subirmos o Mira, a bordo do meu ALTAIR, um pequeno veleiro com 5.90 mts, e disse-me:

- Oh! Vasco, agradeço muito o convite, mas estou muito velho, já me custa muito.

-Oh! Senhor Zé Francisco, velhos são os trapos venha daí!!!!

E assim foi, embarcámos e de imediato passei-lhe a cana de leme para as mãos. Impressionante o conhecimento empírico que tinha do Rio, dizia-me:

- Vasco, vamos chegar mais aquela margem que o vento ali encana corgo abaixo e vamos apanhar uma boa refrega.

- Vasco agora encostamos aquela ponta de terra, que faz ali uma revessa que nos vai dar um empurrãozinho.

E assim fomos rio acima até à Casa Branca (cerca de 1/3 da viagem por rio Milfontes/Odemira) e voltámos sempre à vela. Tive o privilégio de ter sido o último amigo com quem o Zé Francisco navegou a vela.

No início da década de 80, estava eu embarcado num Patrulha na Madeira e recebi com tristeza a notícia da sua partida!!!!
A última vez que vi O VENTO na água, foi há uns anos amarrado à boia na Baía de Cascais, já sem a cabine. Entretanto, fiz alguns contactos entre velejadores e amigos de VNMilfontes e tive a agradável informação de que O VENTO continua “vivo”. Com efeito, o seu actual proprietário, António Lobbert conhecido velejador de Cascais, está a recuperá-lo no estaleiro do Sr. Jaime Costa em Sarilhos Pequenos. Este estaleiro que trabalha exclusivamente em madeira, prima pelo seu trabalho construindo e reparando muitas embarcações tradicionais do Tejo.

Que contente vai ficar o Senhor José Francisco, vendo “lá de ciama” o seu VENTO em reparação no estaleiro imaginado-o de novo e em breve a sulcar as nossas águas!!!

José Francisco, Grande Marinheiro e Grande Homem com quem muito aprendi, não de só de mar, mas também da vida.

Vila Nova de Milfontes, 25 de Outubro de 2016


Vasco Galvão

domingo, novembro 26, 2017

A História verdadeira do Motim nº 3 a bordo do Gracioso Veleiro

Corria o ano da graça de 2003 e navegava o Veronique, célere com o vento, rumo à ilha mágica da Berlenga.
O vento estava de feição e a viagem foi toda, quase toda, vá, feita à vela, de noite, com as luzes de navegação, de incandescência à época, ligadas, e com declamações de poesia mariítima pelo VHF, como era saudável hábito naqueles remotos tempos.
Pelo través da Nazaré, tendo faltado o vento, decidiu-se ligar a máquina. 
Horror, a bateria do motor de arranque estava morta.
Tamanha imprevidência, de que o comandante era o natural responsável, suscitou da parte da tripulação as mais violentas criticas, injustas para o seu BAS (Bem Amado Skipper).
Resolvido tecnicamente o problema, continuou-se a viagem, não sem o bichinho do motim deixar de estar latente naquelas mentes doentias e revolucionárias.
Em Peniche, e como o BAS tinha alguns compromissos em Fátima, não de devoção religiosa, mas de reencontro com antigos colegas de Republica coimbrã, deixei momentaneamente a embarcação entregue ao first mate, Fletcher Christian Pargana.
Má decisão minha pois, pouco depois, a tripulação, instigada pelo first mate, amotinou-se, tendo designado este por MBAS, Mais Bem Amado Skipper.
Em Fátima foi constituída a Comissão para a Canonizção da Beata Sãozinha, nossa estalajadeira em Coimbra, anteriormente beatificada, mas infeliz e injustamente ainda não canonizada.
Apesar dos insistentes abaixo assinados, petições,  descrição dos muitos milagres a ela atribuídos, o Vaticano ainda não atendeu as nossas solicitações.
Justificava-se assim, plenamente, a minha breve ausência da embarcação.
Regressado, rapidamente retomei o comando, destituindo toda a tripulação dos postos a que abusivamente se arvorou, e tomando para mim o posto de MMMMMBAS, Mais, Mas Mesmo Muito Mais Bem Amado Skipper.
Em baixo as provas, fac similadas do Diário de Bordo do gracioso veleiro.













quarta-feira, novembro 22, 2017

A Escala na Figueira

A falta de tempo para uma navegação como deve ser, sem olhar para o relógio, obriga a umas quantas escalas nos portos intermédios, da Berlenga para Aveiro, outras quantas viagens pela A17 de e para Sul, deixando o gracioso veleiro pelo caminho e indo recolhê-lo depois, uns dias ou umas semanas mais tarde, conforme a disponibilidade profissional.




Desta vez, no Verão passado, da Berlenga até Aveiro, arribamos à Nazaré e à Figueira à Foz.




Ambas as pernadas foram feitas pelo médico de bordo, sr João Judice Pargana Fletcher (1) e por mim, o MMMMMBAS (2).

AS fotografias são do Bolha (© Bolha), que acompanhou a chegada e a partida da Figueira.

Na regresso, vindos  da Nazaré, o vento não ajudou muito, tivemos de fazer a viagem quase só a motor até à Figueira da Foz.

Ainda, à saída da barra da Nazaré, fizemos rumo directo a Aveiro, mas, como a ETA não era recomendável, arribamos à Figueira, corrigindo o rumo pelo través da praia da Lourosa.

A entrada na barra da Figueira e entrada no porto de abrigo foram, como sempre, com a suavidade e elegância de manobra típicas do gracioso veleiro e das suas excelentes tripulações.





Uns dias depois largamos da Figueira, com as horas contadas para chegar ao Oudinot, com máquina e velas, tocados por um SE de categoria, cumprimos as  31 milhas náuticas em pouco mais de cinco horas.







Notas do Autor:

(1) Em homenagem ao sr  Flectcher Christien, First Mate na HMS Bounty e chefe de rebelião, amotinado.

(2) MMMMMBAS Mais, Mas Mesmo Muito Mais Bem Amado Skipper, ie, EU.

quarta-feira, novembro 08, 2017

Entradas na Barra da Figueira


Será a barra mais próxima de Aveiro, talvez agora a do Douro, mais praticável há pouco, a suplante, mas é sempre emocionante a sua entrada.
As velejadas (às vezes motoradas) até à Figueira são, normalmente, muito agradáveis e acabam quase sempre à mesa da Rosa Amélia ou do Ceporteng.
Ainda lá irei este ano....



Da Serra da Boa viagem, a arribar ao Mondego


Já dentro do Mondego, a todo o pano


Este ano, de regresso da Berlenga, a manobrar para a entrada na doca