sábado, abril 26, 2025

Os primeiros dias



 Foi das primeiras vezes, que me lembre, que vi o Veronique,  ia na lancha da carreira para São Jacinto e o gracioso veleiro estava amarrado ao António Cação, um pangreleiro que estava a ser desmantelado.

Tinha ainda registo em Hamburgo,  leme de vento e um dinguy no convés da proa.

O sr Poeftcher tinha tido o acidente nesse inverno, que resultou na sua morte,  que relato num post do Ventosga.

Pouco depois o Mestre Alberto encalhou-no no varadouro, e foi lá que o adquiri com o meu Amigo Juca (Jorge Henriques)

À sua ré está o Barconauta, do Piaget, que seguiria para as comemorações da chegada (oficial) dos Portugueses  ao Brasil poucos dias depois.

Aqui ainda armava com pano redondo no traquete, manifestamente inadequado para aquele casco. Passaram depois para sloop.

domingo, abril 20, 2025

Milagre de Páscoa


 

Como já referi, os domingos de manhã são mágicos, os de Páscoa também.

Revisitei, estou a revisitar, Abreu Freire, ribeirinho como eu, murtoseiro e marinheiro, que conheci aquando da comemoração dos 500 anos da chegada, oficial, dos Portugueses ao Brasil.

Com Freire revisita-se também António Vieira, padre jesuíta que também andou por terras de Vera Cruz e que foi mestre na escrita e a quem todos muito devemos.

Devo dizer que foi com Freire que comecei a ler António Vieira, depois dos textos da Selecta.

"Jesus Cristo, na sua imensa sabedoria e poder, com tantos e difíceis milagres, não lhe é conhecido ter salvo um louco, ou um imbecil", donde se infere que curar um leproso está num patamar diferente de curar um louco. (está feito o sr Donald).

O prof Abreu Freire, uns anos depois de ter levado o Barconauta para o Brasil, fez a viagem em sentido contrário num sloop de 50 pés,  o Chic, uma boa parte em solitário. Deu origem a um outro livro seu, o Diário de Bordo.

Solicitou amarração por duas semanas a um clube da Ria, que lho negou, muito certamente por se tratar de uma actividade náutica, meter barcos e Mar, e o sloop do prof Abreu Freire, ao que constava na época, não vir carregado de moscatel torna-viagem. Lamentável preciosismo que privou a cidade de Aveiro do convívio com um filho da Ria.

sábado, abril 19, 2025

Para dias cinzentos


 Literatura de viagens, pelo Mar Oceano, claro.

Estes são alguns dos títulos cá de casa, óptimos para dias enublados já a ouvir o rugir do Mar aqui ao lado.

Se Deus quiser e a Polícia deixar, no fim deste mês até meados de Maio vamos subir o Guadalquivir até Sevilha, onde a minha tripulação vai à Féria e à Maestranza e eu vou ficar pelo gracioso Sterna, pelas tapas andaluzes e pela última aquisição na Fnac, há instantes, o Religião sem Deus, por indicação do Vaz Marques.

Regressando à Ria já está marcada amarração na Torreira a 18, já tomei a minha decisão, já não estou nos indecisos, decididamente não vou nem para Lavacos nem para a Cale do Ouro.

quinta-feira, abril 17, 2025

SENTIDO DE VOTO

 Sinto-me  um dos indecisos para o próximo dia 18 de Maio.

Ainda não consultei a tábua das marés, mas estou indeciso entre a Cale do Ouro, a Torreira ou o Muranzel.

Decididamente para a baía de Lavacos não vou, não me apetece levar com a nortada em cima.

Em boa verdade um gajo como eu, com a minha idade e experiência, tinha obrigação de já ter decidido para onde ir no domingo 18 de Maio mas, élás, ainda vou ver para onde irei fundear nesse fim de semana.

Ainda tenho o cenário de me meter no Alfa e ir até ao Sterna. " Paulatim deambulando longum confictur item", como diria o meu amigo o padre Jeremim Barreiros.







segunda-feira, abril 14, 2025

Saga à Berlenga

Corria o ano da graça de 2022 e tinhamos rumado às ilhas Mágicas.

Com escala na Nazaré, largamos no dia seguinte para a Berlenga, onde nos esperava um magnifico ensopado de choco no Sol e Mar, que já tinha sido do meu Amigo Arnaldo.

O Mar estava trapalhão, desencontrado. A manobra de fundear correu bem mas, comedido como sou, deveria ter largado um pouco mais de corrente, para aí o dobro.

Transportados a terra por um dos taxis que lá operam, iniciei, eu e o first mate sr António Marinheiro, o nosso almoço que, se ainda não disse, era composto por um ensopado de choco e acompanhado por um branco da Verdelha de dar vida a um batalhão de mortos.

E eis que toca o telemovel. Era um amigo a informar que o Veronique   estava a ir à garra. "...já obtive essa informação", retorqui não me acreditando no que me diziam.

Só que poucos minutos depois telefonaram-me de novo, com a mesma informação.

Era sério, conclui.

Pagamos  rapidamente e aí vamos nós, ilha abaixo, já com o camarada do taxi pronto para nos levar ao fundeadouro. 







sábado, abril 12, 2025

Descida da Ria


 A Descida da Ria foi um evento desportivo criado pelo Clube dos Galitos no fim dos anos oitenta, consistindo de uma regata de fundo entre a Torreira e São Jacinto.

Coube-me a organização desta regata nos inícios dos anos noventa, se não me engano a 3ª e 4ª edição.

Posteriormente foi reduzida a distância da regata, com largada no Muranzel e chegada em São Jacinto.

Depois ainda se fez, pelo menos uma edição, no Canal de Mira, entre a Vagueira e a Costa Nova.

Seria talvez a mais icónica regata de fundo do Remo Português.

Seguiram-se muitos anos em que a regata foi esquecida.

No ano passado o Clube dos Galitos resolveu reeditar a "Descida" com um formato entre o contra- relógio e o match-racing.

Confesso que não gostei, nem gosto. As condições de vento e de maré mudam a cada instante na Ria, na Cale da Vila também, o que tem implicações determinantes nos tempos que as tripulações vão registando.

Conseguiu-se trazer a regata para dentro da cidade, com público, mas sequenta. Não é pera doce estar na margem a assistir às equipes a passarem a remar sozinhas.

Não fiquei cliente.

sexta-feira, abril 11, 2025

Academia de Saberes de Aveiro

Bem, cá estamos na Academia de Saberes, a fazer uma apresentação sobre os Caminhos de Santiago, o Português em particular, o Maritimo das Cunchas em concreto.

Peregrinação para ateus místicos, numa versão  cristã do caminho celta ao fim do mundo, Finisterra, que eu fiz, de veleiro em 2011 e 2012, numa organização do Liceo  de Bouzas.





O meu Amigo J Belo fez a primeira parte, com a apresentação da Nau Portugal e o seu fulgurante Bota-Abaixo em Julho de 1940.





quinta-feira, abril 10, 2025

Os caminhos de Santiago

A cristianização dos rituais politaistas anteriores  a Constantino deram na proliferação de santos para todos os gostos, de preferencia oriundos das realezas europeias coevas.

O caminho de Santiago foi, durante séculos, o caminho Celta do Fim do Mundo, a Finisterra, ou Fisterra em  Galego. Ainda hoje é.

De qualquer forma não se pode comparar a peregrinação a Santiago à peregrinação a Fátima.

Calcorreiam os caminhos de Santiago gentes de diferentes credos, ou sem credo nenhum, numa busca de si próprios, em meditação de auto-suplantação.

Nós fomos de veleiro, devidamente certificados pelo Arcebispado, com o compromisso único do respeito e das milhas percorridas até à Ria de Arosa.

Por isso se inicia o caminho em aguas lusas.




quarta-feira, junho 12, 2024

Teste

 Na sequencia de uma censura inadmíssivel do Zukerterbgertreg deixei o fb.

Mantive a conta mas só para anunciar novas bocarras, agora neste espaço.

Espero que os meus Amigos passem a visitar o Ventosga na mesma medida em que iam ao meu perfil no fb.

Espero por vocês.

sexta-feira, dezembro 23, 2022

Dois - Ainda Viana

De saída do Sileiro, pouco depois reentramos em águas portuguesas, no paralelo do Forte da Ínsua, altura que se aproveita para baixar as bandeiras de cortesia, galega e castelhana.

São logo outros ares, com Moledo e a Serra de Arga a nascente.


Depois chegamos ao farol de Montedor e aos seus
 recifes ao largo, onde uma vez bati, na viagem para Norte, pelas quatro da manhã.

Doutra vez, a primeira em que entrei no Lima, por volta de Montedor, liguei para a marina de Viana pelo VHF a pedir auxilio para arribar à marina.

Respondeu-me um colaborador, de quem viria a tornar-me amigo, que me disse para quando já estivesse no rio, voltar a ligar, que me orientava a manobra.

Uma horita depois, já no Lima, voltei a ligar e o diálogo foi como a seguir se descreve:

-- Está a ver uma ponte ?

Claro, estava à minha frente, na minha proa, a ponte Eiffel que liga Viana à margem Sul, a Darque.

--Sim, estou a ver, respondi.

-- Então venha até aqui que nós levantamos a ponte para o sr entrar.

(eh pá, como é que aqueles gajos vão levantar a ponte, aquilo é enorme, aquilo é muito pesado)

Rapidamente percebi que a ponte a que eles se referiam não era a Eiffel mas uma pequena ponte móvel que dava entrada para a marina.

Já amarrados rimo-nos um bocado, um bom bocado, com a minha ignorância/aselhice.

Ficamos amigos e, quando passo por Viana, temos sempre uns dedos de conversa e trocamos uns copos de verde.


Numa dessas conversas fiquei a saber que o sr Georg Poeftscher, o antigo armador do Veronique, fez longas estadias em Viana, antes de ter navegado para Aveiro, sendo o principal freguês das cervejarias locais, que lhe levavam o produto à marina e com ele confraternizavam.

Eu falei apenas uma vez com o sr Georg, ainda ele estava amarrado no canal das Pirâmides em Aveiro mas, pelos escritos e livros que dele herdei, dá para saber ter sido uma pessoa muito interessante e culta.

Ainda em Viana, mas em sentido Norte, bati numa escolho ao largo de Montedor, pelas quatro da manhã.

Aselhice pura.

O rumo a direito de Aveiro para o cabo Sileiro, à entrada de Baiona, passa por cima do farol.  É costume deixar a embarcação abater um pouco para Oeste para evitar o farol e os escolhos. Por aselhice não abatemos o suficiente e, pelas quatro da manhã, um estrondo no casco alertou-nos.

Valeu o Veronique ser de aço e o incidente não ter provocado mais que uma pequena falha no anti vegetativo.

De qualquer forma fizemos a inspeção possível àquela hora e sem grande luz, para decidir se continuávamos para Baiona se arribávamos a Viana. Decidimos continuar e, já em Baiona, uma inspeção mais cuidada ao casco mostrou a solidez do Veronique.


O Inicio (espero)

 


Começamos em Baiona.

Baiona é talvez a mais portuguesa das  terras galegas.

É difícil, sobretudo de Verão, andar pelas ruelas e pelos bares e pelas marinas sem ouvir falar português. Da minha parte, fui muito mais vezes a Baiona de veleiro que de carro. Foram mais de dez viagens de veleiro antes da primeira vez por estrada.

Baiona é assim, celta e mágica.

O porto de recreio do MRCY – Monte Real Clube de Yates tem uma localização privilegiada na baia de Baiona, na entrada da Ria de Vigo. A Norte temos as Estelas e o Monte Ferro, com a “ passagem das pedras” para o lanço que dá acesso a  Vigo, a Cangas, às Cies, que abrigam a Ria do Oceano aberto.

O Clube tem um restaurante de acesso restrito, mas aberto aos utentes velejadores que aqui arribam. O ambiente requintado, com toalhas e guardanapos de pano, madeiras bem distribuídas, serviço de qualidade. Só não é o mais frequentado pela minha tripulação porque a oferta de restaurantes em Baiona é supimpa e a minha rapaziada prefere ambientes mais informais e frequentados.

Ultimamente temos ido amiúde ao Racuncho Mariñeiro, na rua paralela à marginal, que oferece umas  muito boas tapas, "isabelinhas" e chipirones, e a preços muito simpáticos também.

Baiona foi palco de muitas e boas estórias com as minhas tripulações, anos seguidos, com as viagens às Cies, a Vigo, às rias mais a norte, à de Aldan e à de Arosa, que me deixaram as melhores recordações.

Foi a Baiona que arribou Pinzon, de regresso das Índias, como ele dizia. Numa época em que o calculo da latitude não levantava problemas aos pilotos, enquanto Pinzon tocava os areais de Baiona o almirante Colombo arribava ao Tejo, para se encontrar com D João II, que estava em Azambuja, o que o levou a subir o Tejo e dar conhecimento ao rei rival dos seus do resultado da sua viagem às “Indias”.

Pinzon dá nome a ruas e a hotéis em Baiona, é o seu herói.

Na saída de Baiona para Sul temos logo pela frente os ‘Lobos’, uma série de recifes e escolhos, ao largo do cabo Sileiro, devidamente assinalados com uma boia cardinal.

De uma vez, saía com um amigo e com rumo a Aveiro, desligamos a máquina e mareamos para SW com um vento quase contrário. Desci à cabine, não me lembro já para quê, e o meu amigo, ao leme e para ganhar vento, arribou ao vento, ficando com os Lobos mesmo na proa. Chamou-me em urgência porque tínhamos um submarino a emergir mesmo à nossa frente. Apercebendo-me de que se tratava dos Lobos, fiz leme imediatamente para oeste, orçando, mas safamo-nos dos recifes.

Doutra vez, no mesmo local e com o mesmo vento, falho-me a máquina e tive de regressar só com vela a Baiona, sendo acompanhado por um outro veleiro de Aveiro, que me auxiliou na manobra de amarrar no MRCY. Ainda hoje sou lembrado no clube por esse incidente.



domingo, maio 15, 2022

Navegar até ao Bico da Murtosa

Já há muitos anos que planeava ir com o Veronique até ao Bico, mas nunca fui, o receio de encalhar com um embarcação de 8 toneladas nuns esteiros e cales de onde dificilmente me safaria, foi sucessivamente adiando a decisão.

Finalmente, com a dragagem recente e, sobretudo, com a marcação do canal, decidi-me

Primeiro, com a lancha da Avela e com o GPS a marcar o 'risquinho' lá fomos navegando rindo, com muito vento e frio, almoçar no Restaurante do Bico.

Depois foi a vez do Veronique. Uns dias depois, já com as 8 toneladas de ferro, e com caldeirada marcada, lá seguimos.

Por ultimo com o  Núcleo Duro da República Jacintal de Coimbra, em caldeirada de enguias (*) no Bico da Murtosa.

No (tenebroso) Canal de Ovar, ainda antes do Muranzel, um banco de areia houve que, sem prévio aviso e fora do horário, se atravessou na nossa singradura no exacto momento em que o nosso (esforçado) comandante se debatia com os botões de on off do tablet navionics .

Depois da redistribuição de cargas o donairoso veleiro soltou-se e continuou impante a sua derrota.

(*)por acaso foi barriga de porco na brasa .










quarta-feira, janeiro 13, 2021

Uma jornada na nossa Ria

 Texto de Alberto Hélio que aqui reproduzo com a devida autorização e vénia





Para que não restem dúvidas de que amizade não se circunscreve a um espaço, mas tendo o espaço identidade, não gosta que lhe troquem o nome... exatamente como as pessoas.
Dedico a
Senos Fonseca
o que a memória me permitiu escrever de uma das muitas aventuras que nos foram comuns, só para relembrar que a vida não é sempre a preto e branco.
Este ilhavense por quem tenho uma singular estima, tem pugnado pela sua terra como poucos gafanhões o têm feito pela Gafanha.
Um forte abraço para o João e para si também.
Pronto... o homem além do andorinha "Zinda", do catamaran "Easy Cat" construído a bricolar na garagem, do bote "Chicharro", da bateira que não me lembro do nome, e do "Tolan" - uma baleira em fibra que apanhámos a arrolar -, deu-lhe na telha que tinha de comprar um moliceiro...
Num sábado reuniu a tenebrosa tripulação - Os Asas de Portugal da Casa do Bico - com destino a Pardilhó onde a respeitosa embarcação habitualmente varava.
Numa breve "workshop" ministrada pelo ex-barqueiro, apressadamente nos adaptámos ao maneio e nomenclatura da palamenta.
Ao zarpar pela manhã de Pardilhó rumo à Biarritz, borbulhava pela ré o velho moliceiro um murmúrio de despedida ao lugar que o viu nascer.
O casco denunciava excessivas camadas de pez negro e muito calafeto. Já não era nenhum menino. Mas haveria de se familiarizar com irrequietude da marinhagem da Casa do Bico.
Comandava a nau Senos da Fonseca. Da tripulação faziam parte o seu filho João, os sobrinhos Picados, eu e a minha filha Doroteia, o João Bichão e o seu filho Pedro, o Fred, o Vitor Guimarães, e não me lembro se faltará mais alguém?!
A segurança e apoio ao "paquete" era feita pelo "andorinha" que o Bichão tinha adquirido havia pouco tempo no Carregal.
Contra a corrente, tocado por uma ligeira brisa de noroeste, arrastava-se a embarcação naquele plácido dia de verão.
No Canal de São Jacinto, já para sul da Ponte da Varela, acendeu-se o fogareiro nas painas entre o castelo da proa e a tóstia. Sem interromper a singradura tratou-se do almoço - uma petingada assada na brasa com broa, guarnecida com uma colorida salada bem azeitada e avinagrada.
Comeu-se à moda antiga, com a petinga a pingar sobre a broa e a garfar a salada servida num único alguidar.
Que manjar não era a comida a bordo, temperada com os ares da ria.
Existia ainda o navio-motor bacalhoeiro Rainha Santa, porém em outras funções. Estava agora vocacionado para a restauração, encalhado a sul da Torreira. Deixámo-lo por estibordo ao lusco-fusco com a vela a panear, ajudados pela vazante e pelo auxiliar fora de borda.
O ânimo a bordo era elevado embora os mais novos dessem sinais de algum desconforto por estarem longe de casa e das mães.
- Oh rapaziada é hora de preparar o jantar! Ordenou o comandante.
Tacho ao lume com água da ria, cebola, rodelas de batata albardada, por cima uma generosa camada de petinga da mesma família da que foi servida ao almoço e um ramalhete de salsa.
A manobrar no cagarete o comandante Senos da Fonseca ia indagando da evolução do rancho. Não havendo luz a bordo, com o isqueiro acendia um jornal, aliviava o testo do tacho e observava o andamento da fervura, não sem que alguma cinza do jornal também condimentasse a caldeirada.
Cada vez que se destapava o tacho notava em Vitor Guimarães (filho) muita curiosidade sobre o que se estava a cozinhar.
- Então, mas isso é uma caldeirada? Perguntava ele.
- E o que é aquilo por cima do peixe? Referindo-se ao ramalhete da salsa.
- É moliço! Respondi eu ao "fraca tripa" que ao almoço se tinha baldado, por não ter a bordo as mordomias de casa, como talher completo e o pratinho individual. Soube que convenceu o Fred a levá-lo no andorinha ao "snack" do Rainha Santa, onde matou a galga, por achar estranho todos comerem a salada do mesmo alguidar.
Neste arrolado, enxergava-se agora pela amura de estibordo a cidadela bem iluminada da Pousada da Ria, dando indícios de festança. Na aproximação, distinguia-se um casal à varanda do primeiro andar que vestidos daquela maneira, denunciavam tratar-se de casamento.
Foi por aqui, que Senos da Fonseca a pretexto de atesto dos tanques da aguada, mandou preparar as retenidas e os lançantes para atracação.
Depois de bem consolidada a amarração, perfilou-se a equipagem sobre as falcas de estibordo observados com espanto por inúmeros convivas dos noivos.
Uma ocasião festiva merecia o nosso empenho canoro. E à boa maneira de Piçarra também os "Asas de Portugal da Casa do Bico" se esmeraram ao evocar Ramalho, que não o Eanes.
Ramalho Ramalho
Ramalho és tu.
Vai chamar Ramalho
ao olho do cu!
Aplausos efusivos vindos do balcão superior davam conta do agrado pela nossa prestação, que só ao cabo de vários "encores" se foram esmorecendo.
Com a devida autorização fomos desembarcando para a zona ajardinada nas traseiras da Pousada, onde iria decorrer o jantar.
Acontece que as batatas ainda não estavam cozidas e restava pouca água no tacho. Perguntei a uma empregada onde havia água e ela indicou-me o sistema de rega por aspersão que ainda espingalhava por aquela hora. Na minha pachorra agarrando o tacho pelas orelhas dançámos eu e ele à roda do bico aspersor mendigando umas gotinhas de água para compor a caldeirada.
Entretanto a João Fonseca chegava-lhe o cheiro a doçura.
- Eh Hélio! Quero bolo da noiva.
- Tu abispa-te João! Vais por essa porta e se encontrares alguém, pede-lhe bolo da noiva... que eles dão!
Disse-lhe aquilo para o dissuadir... mas na volta lá vinha o João a manducar do bolo desejado?!
Ainda não refeito desta, vejo uma empregada a caminho do canil, com uma travessa acaramulada de pedaços de leitão, daqueles que havendo opção ninguém quer.
Enchi o peito de descaramento e perguntei:
- Olhe senhora posso saber para onde leva os ossinhos?
- É pros cães! Respondeu-me.
- Béu! Béu! Béu! Bem ladrava eu... mas sem a sorte do João Fonseca.
Estava a caldeirada pronta.
Tacho no meio da relva e os "índios" todos à roda dele. Sem louvados, deu-se início à janta, todos a comer do tacho à boa maneira política.
À minha esquerda, debicava com algum fastio o Vitor Guimarães da "caldeirada de moliço". Reparei que fazia incursões em "slide" à esquerda e à direita da fatia que lhe estava destinada no tacho, na busca da petinga em detrimento da batata.
- Eh amigo ou comes a eito ou quando invadires o meu espaço, garfo-te ! Disse-lhe.
Como era a primeira vez que o rapaz tinha embarcado, havia de perder o pelo.
No fim da refeição correu tudo bem, agradecendo o comandante Senos da Fonseca pela hospitalidade, e quando largámos lá estavam os convivas no primeiro balcão a desejar-nos boa viagem.
Todos a bordo, e lá íamos com a maré auxiliados pelo fora de borda e de vela içada que outra coisa não fizera senão panear.
Caíra a noite e o vento que tinha tirado folga nesse dia.
Foram-se então recolher para os aposentos do castelo da proa os mais miúdos; o João Fonseca, o Pedro Bichão e a minha filha Doroteia.
Nem Senos da Fonseca ao adquirir o moliceiro imaginaria, fosse bonificado por aquela plácida noite luarenta e estrelada, que nos alumiava o caminho.
Antes de São Jacinto já a água levava mexa para a Barra e na confluência do Canal de São Jacinto com o Canal Principal havia ondulação cavada, embora redonda. Mandava o bom senso que corrente perde-se fulgor para prosseguir.
Arribámos então à baía de São Jacinto. Os miúdos dormitavam confortavelmente instalados, e os graúdos desembarcaram.
Procuraram então os piratas avidamente um café que estivesse aberto na Ilha do Tesouro. Não é fácil passar um dia sem um cheirinho a cafeína. Creio que fomos parar ao Gato Negro junto à BA7.
À entrada estava uma menina toda redondinha - um borracinho - que não escapou a um piropo que lhe dirigi:
- És boa cumó milho!
- Pois sou mas não é pros teus beços! Surpreendeu-me ela.
E lá fomos repor o teor de cafeína e de chiripiti.
Quando o comandante achou por bem, largámos para a travessia da península de São Jacinto para a península da Gafanha.
Quando nos aproximámos do Canal da Lancha no Forte acerbemo-nos do alarido e do bracejar das mulheres e mães que aguardavam desesperadamente pelos seus, devido ao adiantado da hora.
Cena semelhante só mesmo antigamente na entrada dos navios bacalhoeiros.
Pelas quatro da matina ficou acomodado o velhinho moliceiro no seu novo ancoradouro, na Biarritz, junto à Casa do Bico, onde foi feliz até alquebrar pelo dorso.

quarta-feira, setembro 12, 2018

Romaria do São Paio da Torreira

Já teve melhores dias, sobretudo do ponto de vista de quem lá chegava de barco pelos canais da nossa Ria.
Não há muitos anos, quando a marina  estava operacional, navegavamos pela Ria até à Torreira e passávamos lá uma semanita, romariávamos, participávamos da festa.
Hoje é impensável mas, mesmo assim, o gracioso veleiro subiu impante o canal de Ovar e, como a maré estava muito alta quando chegamos, ainda demos uma voltinha ao largo da marginal da Torreira, até que fundeamos, a Sul do Porto de Abrigo dos Pescadores, num local em que registamos 7 metros na PM e 4,5 metros de sonda  na BM




Seguimos os risquinhos do Navionics já anteriormente marcados, embora recomende seguir o risco mais a Oeste.



Na rota para a Torreira fomos acompanhados por alguns golfinhos, sinal de que a nossa Ria tem as aguas mais limpas



O nosso pescador de serviço apanhou este exemplar não identificado. Não houve acordo quanto à espécie, tendo os opínadores ficado divididos entre um xarroco grande e um tamboril pequeno. Na duvida foi devolvido à Ria.



Local onde fundeámos, 4,5 metros de água debaixo do Veronique   no estofo da BM.




Na margem, mesmo ao lado, dois moliceiros preparados para a noite, faziam a festa com uma gaita de beiços e uma pandeireta.



A noite caiu  mágica, serena, sem vento.






O fogo, o pretexto, foi magnifico.



E suspendemos para regressar ao Oudinot pelas 0030 de domingo, com apenas uma hora de enchente, mas rija.
Um ligeiro toque no fundo do canal, antes do Muranzel, que safamos em poucos minutos, não ensombrou uma viagem e uma noite memorável.

domingo, dezembro 31, 2017

Canal de Mira

Faz parte da tradição do Veronique passar o Natal e o Ano Novo na Vagueira.


Pelo caminho os Famingos Rosa



A escala técnica no Clube de Vela


E a essencial grinalda durante a noite

domingo, dezembro 10, 2017

Restingas no Canal de Mira - 2

Para quem queira navegar até à Vagueira pelo canal de Mira, convém que tenha em conta alguns cuidados, nada de especial, mas importantes para não se terem percalços.
O primeiro, e falo por experiência,  é a ponte da Barra.
Embarcações com calado aéreo superior a 15 metros terão  de pensar duas vezes antes de se aventurarem.
Um amigo pintou os pilares da ponte, a montante e a jusante, com traços de tinta castanha, que indicam 14 metros até ao tabuleiro da ponte. São uma boa indicação para quem passa por ali nas primeiras vezes.
O Veronique, 15 metros da agua ao top mastro,  tem de fazer a viagem em duas etapas, uma baixa Mar para passar a ponte e uma meia maré para cima  para o resto da viagem.


Fotografia ilustrativa da folga do mastro do Veronique para a ponte. Notar que do top mastro à agua são 15 metros.

 Da minha parte faço sempre uma paragem técnica na Costa Nova, simpática praia servida dos melhores restaurantes das redondezas, pelo que é sempre recomendável esta espera de maré.


Foto do google earth em que se vê bem a restinga a evitar


Para a espera temos o pontão exterior do CVCN e o pontão exterior do Porto de Pesca Artesanal, este de muito fácil acostagem na enchente.


Aspecto da restinga vista do arco central da ponte da Barra
                                               © André Zuquete

O arco para passar a ponte é o segundo a partir do muro nascente do canal.
A sonda anda aí perto dos 3 m na Baixa Mar.
O arco central tem sensivelmente a mesma altura, mas o canal está muito assoreado nessa zona.
Passada a ponte, inflete-se para poente para ganhar o enfiamento do arco central com o guincho do CVCN, procurando se o Rv =222º
O quebra mar exterior  do CVCN, na enchente, tem uma corrente forte por baixo, que dificulta a amarração. Se o vento na altura for do quadrante Norte,  a dificuldade é maior.
No porto de pesca artesanal, a corrente de enchente é paralela ao quebra mar exterior, pelo que a amarração é mais simples.


Este vosso amigo em  trabalhos de prospecção ao canal de Mira, para poder mandar, com propriedade, as bocarras deste modesto texto

quinta-feira, dezembro 07, 2017

Restingas no Canal de Mira da Ria de Aveiro

Só não encalha na Ria quem não navega na Ria.
Desta vez vou falar no caminho que se deve seguir desde a Costa Nova até à Vagueira. 
O canal está bem marcado, com balizas correctamente colocadas e recentemente pintadas, vermelho-verde que, a serem respeitadas, garantem uma viagem sem sobressaltos, de meia maré para cima, para embarcações com dois metros de calado.
O sitio mais manhoso, porque as balizas são mais escassas, é na zona do porto de pesca artesanal, onde uma restinga de grandes dimensões, em frente ao Riactiva, pode enfaralhar as contas do passeio.
O truque é, no entanto, muito simples.
A partir do CVCN para Sul navega-se, sem qualquer problema, junto ao muro poente do canal de Mira.
Chegados ao Porto de Pesca Artesanal, logo na sua embocadura, faz se proa a nascente, enfiados a uma antena da TMN na Gafanha da Encarnação, e bem visível.
Chegados ao enfiamento da Baliza  a Norte com a Bóia Vermelha a Sul, sai-se do enfiamento nascente e aproa-se à bóia.
A partir daqui é só seguir e respeitar as balizas.
Um pouco mais a Sul há um cabo de Média Tensão que atravessa o canal de Mira e que está, no estofo da preia Mar, a 22 metros do nível da maré.
A amarração ao cais da Balsa, mesmo a jusante da ponte da Vagueira, faz se com a maior das facilidades na enchente, pois a corrente encosta-nos suavemente ao cais.

Aspecto das restingas vistas do Porto de Pesca e o poste da TMN


Esquiço do "caminho das pedras"

Outra vista das restingas, na baixa Mar, e do Poste


Vista das restingas e da Baliza do enfiamento a respeitar à frente


AsAs restingas e o Porto de Pesca Artesanal

segunda-feira, dezembro 04, 2017

José Francisco


Da Revista de Marinha e do Comandante Vasco Galvão, companheiro de viagem no Cruzeiro da ANC  aos Açores de 2004, o texto em baixo, que li com muito agrado. 



JOSÉ FRANCISCO
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Conheci o Senhor José Francisco há muitos anos em Vila Nova de Milfontes, minha terra de adopção. Tive o prazer de privar com ele, quer a bordo de O VENTO, quer em muitos serões que passei na sua casa, ouvindo as suas apaixonantes histórias passadas no mar e não só. As suas narrativas eram uma lição de vida.

Começou a sua vida de mar em finais do Séc. XIX  com tenra idade, como moço de convés embarcado nos Iates e Palhabotes que navegavam exclusivamente à vela, sem qualquer motor/gerador e faziam cabotagem na nossa costa, a maioria pertencentes a armadores locais. Contou-me que a viajem rio acima até Odemira, era à vela com ventos dominantes de  NW de feição, aproveitando a maré enchente. Pelo contrário, a descida do Mira com ventos pela proa, era feita em duas marés com um bote a remos a rebocar à proa, ou à sirga, isto é, com cabos passados a terra com os tripulantes a alarem à mão!!!!! Saliento que o curso do Mira se desenvolve na direção SW/NW, pelo que com os ventos dominantes de NW era viável a navegação à vela até Odemira. Esses pequenos navios de cabotagem (tonelagem inferior a 100 tons), “importavam” de uma forma geral produtos que não era possível obter localmente (mercerias, conservas, tecidos, petrólio para iluminação, etc) e “exportavam” produtos locais (cortiça, cereais e outros).

No 5 de Outubro de 1910,José Francisco estava a bordo na Doca do Terreiro do Trigo em Lisboa, carga embarcada e pronto para zarpar para VNMilfontes. O reboliço foi tal que largaram somente dois dias depois, tendo a tripulação levado até aquele porto, a notícia da implantação do novo regime.

Já nos anos 20, embarcou como clandestino num navio para os EUA, onde chegou naturalmente como muitos emigrantes com uma mão à frente e outra atrás!!! Aí fez de tudo um pouco para sobreviver. A dada altura trabalhou num circo com um Cow Boy fazendo o número do Guilherme Tell, ou seja, José Francisco punha uma maçã na cabeça e o Cow Boy com um tiro de revólver, partia a maçã!!!!!!!!


Entretanto, aprendeu a ler e escrever (em Inglês, claro) tendo chegado a estudar para Piloto cujo curso nunca concluiu, mas contou-me, sabia marcar pontos na carta com leituras de sextante do Sol e das Estrelas.
Era engraçadíssimo, pois falava correntemente Inglês/Americano, mas com um leve sotaque alentejano (Okay, pronunciava Óquêiii).

Mais tarde conseguiu um dos seus grandes objectivos, fazer carreira na Marinha Mercante Americana, onde chegou a Contra-Mestre.

Contou-me que num Navio a carvão onde embarcara, um dos Fogueiros passava a vida em rixas com os seus colegas, provocando discussões e lutas terríveis (à navalhada). Os colegas fogueiros a certa altura, fartos do mau ambiente que ele provocava, não estiveram com meias medidas. Pegaram nele e atiraram-no para dentro da fornalha!!!! Devo esclarecer que José Francisco era tripulante de convés e nada tinha a ver com os fogueiros da Casa da Máquina. Também nesse tempo acontecia por vezes o recrutamento de tripulantes entre marginais que deambulavam nos portos por esse mundo fora. O embarque era a forma rápida e eficaz de fugirem às autoridades que os procuravam.

Já como Contra-Mestre de um Navio Petroleiro em plena 2ª Guerra, adoeceu, baixou ao hospital e o Navio zarpou sem ele. A meio do Atlântico foi torpedeado por um U Boot. O Navio foi ao fundo tendo morrido todos os tripulantes, e desta forma José Francisco lá se safou!!!!!

Quando o conheci em VNova, já estava Reformado e naturalizado Americano. Recebia regular e pontualmente a sua pensão de reforma da Companhia Armadoar Americana onde trabalhara.


Na década de 60, um triste episódio. Estava à janela do quarto com sua Mulher, Francisca Bezerra também natural de VNMilfontes numa pensão no Rossio em Lisboa, quando a Polícia tenta controlar uma manifestação de estudantes. Uma bala perdida mata a sua Mulher que estava a seu lado!!!!

Novo projecto, o seu veleiro O VENTO.

Com o seu vasto conhecimento e experiência de mar, com muito empirismo à mistura como era seu apanágio, executa um modelo à escala numa barra de sabão. Entregou o modelo num estaleiro na Amora na margem esquerda do Tejo  e terá dito: Quero isto, mas com 7.5mts de comprimento!!!!
E assim foi, passado poucos meses, sulcava os mares da nossa costa, em Solitário a maioria das vezes, a bordo de O VENTO que armava em CUTTER, gabando-se de não ter a bordo outra energia, além da eólica e do petróleo para os faróis de navegação e iluminação da cabine. Por vezes passava dias seguidos no mar sem ninguém saber do seu paradeiro, pois não tinha rádio a bordo (telemóvel só muitas décadas depois!!!!!).

Perguntei-lhe:

- Sr. Zé Francisco, e quando está cansado, o que faz?
- Simples, passo para fora da carreira dos vapores (como eram conhecidos pelos mais velhos, os corredores de tráfego marítimo da nossa costa), ponho de capa com o pano aquartelado (manobra das velas em que o barco fica quase imobilizado, apenas com um reduzidíssimo seguimento avante, 1 a 2 nós no máx.) e vou dormir!!!

Várias vezes tive o prazer de navegar com ele.
O último grande projecto era atravessar o Atlântico em solitário e morrer nos EUA. Um problema de visão não lhe permitiu concretizar este projecto. Contudo, idealizou e concretizou um “telecomando” por meio de cabos (Gualdropes, adriças, carregadeiras e outros) que lhe permitiam fazer toda a manobra em solitário, sentado nos vaus do mastro. Era vê-lo na Baía de Cascais, em finais da década de 70 e já com mais de 80 anos de idade, a velejar sentado nos vaus sempre aplaudido pelos entusiastas do Clube Naval e por outros velejadores que por ali passavam.



Em 1976, era eu um jovem Cadete da Escola Naval, e fui numa Viagem de Instrução ao Bi-Centenário da independência dos EUA em Nova York. Dias antes da largada, fui ter com José Francisco e perguntei-lhe se queria algum “mandado” (como se diz no Alentejo) para NY. Pediu-me que levasse a foto dele a bordo de O VENTO (igual à que aqui publicamos com o nosso amigo em solitário sentado nos vaus, demandando a saída da barra de VNMilfontes),  para oferecer à companhia de navegação onde trabalhara décadas atrás. Foi com o maior dos prazeres que lhe satisfiz este pedido. Assim lá fui ao escritório em Wall Street e fiz a entrega ao funcionário, que embora não conhecesse Mr. Francisco, era ele que mensalmente lhe processava a pensão de reforma.

Tempos depois, e incapacitado de concretizar o projecto da travessia Atlântica, vende O VENTO.

Um dia, bati-lhe à porta de casa e convidei-o para subirmos o Mira, a bordo do meu ALTAIR, um pequeno veleiro com 5.90 mts, e disse-me:

- Oh! Vasco, agradeço muito o convite, mas estou muito velho, já me custa muito.

-Oh! Senhor Zé Francisco, velhos são os trapos venha daí!!!!

E assim foi, embarcámos e de imediato passei-lhe a cana de leme para as mãos. Impressionante o conhecimento empírico que tinha do Rio, dizia-me:

- Vasco, vamos chegar mais aquela margem que o vento ali encana corgo abaixo e vamos apanhar uma boa refrega.

- Vasco agora encostamos aquela ponta de terra, que faz ali uma revessa que nos vai dar um empurrãozinho.

E assim fomos rio acima até à Casa Branca (cerca de 1/3 da viagem por rio Milfontes/Odemira) e voltámos sempre à vela. Tive o privilégio de ter sido o último amigo com quem o Zé Francisco navegou a vela.

No início da década de 80, estava eu embarcado num Patrulha na Madeira e recebi com tristeza a notícia da sua partida!!!!
A última vez que vi O VENTO na água, foi há uns anos amarrado à boia na Baía de Cascais, já sem a cabine. Entretanto, fiz alguns contactos entre velejadores e amigos de VNMilfontes e tive a agradável informação de que O VENTO continua “vivo”. Com efeito, o seu actual proprietário, António Lobbert conhecido velejador de Cascais, está a recuperá-lo no estaleiro do Sr. Jaime Costa em Sarilhos Pequenos. Este estaleiro que trabalha exclusivamente em madeira, prima pelo seu trabalho construindo e reparando muitas embarcações tradicionais do Tejo.

Que contente vai ficar o Senhor José Francisco, vendo “lá de ciama” o seu VENTO em reparação no estaleiro imaginado-o de novo e em breve a sulcar as nossas águas!!!

José Francisco, Grande Marinheiro e Grande Homem com quem muito aprendi, não de só de mar, mas também da vida.

Vila Nova de Milfontes, 25 de Outubro de 2016


Vasco Galvão